No Alentejo, um regresso ao passado.

No Alentejo, um regresso ao passado.

Domingo de inverno em Lisboa! Quando o sol nasceu e o galo cantou no parque Eduardo VII, já passava das 8 horas da manhã. Num ônibus turístico embarcamos com destino à Amareleja, vila situada no Alentejo que, até o século XX, foi considerada a maior aldeia de Portugal.

Pela estrada contemplamos uma paisagem bucólica, verdes planícies repletas de sobreiros, oliveiras, vinhedos e rebanhos de ovelhas.

No percurso de pouco mais de 2 horas, o professor Virgílio Loureiro e o enólogo Enrico Pignone, que nos guiavam, contaram um pouco da história daquela terra, tão preservada e cheia de encantos!

Há cerca de 3 séculos atrás, a paisagem era diferente da atual, predominavam as azinheiras, árvores resistentes ao forte calor da região e produtoras de bolota doce para a alimentação das pessoas e animais. Havia alguma floresta, para refúgio da caça, que a aristocracia se entretinha a matar, e o plantio principal era de cereais, fato que deu ao local o apelido de Terra do Pão.

Quanto ao porco, animal carismático do Alentejo, este ganhou expressão no século XVI, quando começou a perseguição aos judeus, que ali buscaram um refúgio. Como não comiam carne de porco, não criavam porcos e eram facilmente descobertos, por não praticarem a matança do porco.

Os sobreiros passaram a dominar a paisagem no século XVIII, quando os ingleses tornaram as garrafas de vidro tão resistentes que se vedavam com uma rolha de cortiça introduzida à pressão. Portugal então tornou-se o maior produtor de cortiça.

O professor introduziu também o tema que nos levou àquele passeio: o milenar vinho de talha! Ele defendeu a qualidade do barro em relação à madeira, visto que este último, por ser um material poroso, fica sujeito a infiltrações e consequente desenvolvimento de bolores que transmitem sabor a bafio ao vinho. Já as talhas, por serem impermeabilizadas com resina ou cera de abelha, não se estragam em contato com o ar, garantindo maior qualidade aos vinhos. Entretanto, as vasilhas de madeira, invenção do mundo da cerveja (trazida pelos celtas e germânicos), são mais leves e não se partem, por isso acabaram por substituir as talhas.

No Alentejo, porém, como não havia madeira de qualidade, visto que os sobreiros não são adequados para fazer tonéis, e havia muito barro, manteve-se a tradição de fazer vinho em talhas.

E chegando nas proximidades do nosso destino, saímos da estrada principal e fizemos uma breve parada, para conhecer as vinhas arcaicas, onde as uvas são cultivadas em baixa escala, sem pesticidas, normas e, segundo o nosso professor, cultivadas por amor e não por dinheiro!

A casta tinta principal é a Moreto, que produz o melhor vinho tinto da Margem Esquerda do Rio Guadiana e o pior da margem direita, o que se deve à técnica de enxerto, praticada desde que a praga americana filoxera atacou as vinhas europeias no século XIX.

Localidades de solo/subsolo arenoso, como Colares, Algarve e Amareleja sobreviveram a esta praga. As videiras mansas, como são chamadas aquelas onde não é feito o enxerto, produzem os melhores vinhos, de acordo com o professor Virgílio.

Vimos também as vinhas novas, cujo cultivo é destinado à produção de vinhos em escala industrial. Estas são plantadas e irrigadas de acordo com as normas da comunidade europeia.

Já em Amareleja, adentramos um pouco mais no passado, quando nos foi apresentado o vinho feito em Talhas, o qual foi trazido para Portugal pelos romanos há 2 mil anos atrás e continua sendo tradição no Alentejo, embora restem pouquíssimos produtores e nenhum incentivo governamental. Nosso primeiro anfitrião foi o Sr. Catrino, que mantém a produção deste vinho em sua pequena adega, herança de seus antepassados.

Nas tabernas alentejanas, a tradição entre os nativos é o vinho de talha branco. As castas tradicionais são a pendura, o roupeiro e o antão vaz, porém tivemos a oportunidade de experimentar o tinto também. Ambos nos foram servidos pelo Sr. Catrino acompanhados dos deliciosos petiscos típicos, como o toucinho entremeado salgado, o queijo de cabra e o famoso pãozinho. Após "preparar a boca", expressão usada pelo nosso ilustre guia, seguimos para a nossa segunda visita, adega Amareleza. Lá, o nosso anfitrião José Piteira nos deu uma verdadeira aula de vinho na talha. Começou explicando que o processo é muito simples, visto que o vinho é feito mais no campo do que na adega.

Após a vindima, que ocorre entre agosto e setembro, dependendo da casta, ocorre o desengaçamento das uvas e o seu esmagamento manual, do qual resulta o mosto. Este é colocado na talha e 24 horas depois começa a fermentar naturalmente. Toda a parte sólida sobe, portanto, é necessário mexê-la algumas vezes ao dia com um rodo de madeira. Após a fermentação alcoólica, que leva em torno de 6 a 8 dias, inicia-se a fermentação malolática. Nesta fase as talhas não devem ficar expostas ao ar, por isso são tampadas com um pano, para não caírem lá as moscas da fruta. Em seguida ocorre a sedimentação da parte sólida, o que ajudará a filtrar o vinho.

Em final de outubro o vinho já está quase pronto, mas a tradição diz que é no dia de São Martinho (11 de novembro) que se começa a beber o vinho! Para retirar o vinho da talha, é colocada num orifício localizado na parte inferior da talha, uma cana cheia de caules de junça, planta que ao inchar durante a passagem do vinho, funciona como um filtro natural. Os primeiros litros saem turvos, depois o vinho vai ficando mais limpo. Sem esse recurso, o vinho, apesar de ser filtrado pelo engaço, que fica depositado no fundo das talhas, tem sempre de ser colocado de novo na talha para, pelo menos, uma segunda passagem.

Antigamente usava-se enterrar as talhas, devido à sua fragilidade. O vinho então era retirado pela parte superior da talha.

O vinho é consumido normalmente até o mês de março do ano seguinte, segundo Piteira.

Quando é preparado para engarrafamento, pode durar até cerca 20 anos. Neste caso exige um preparo especifico.

Em 2011 a CVR (Comissão Vitivinícola da Região) regulamentou os vinhos de talha, que já são exportados para países como o Brasil, EUA, Rússia entre outros.

E, finalmente, com um tradicional almoço alentejano, um saboroso caldo de bacalhau e um belo cozido à portuguesa, nos despedimos dessa região cheia de tradição, cultura e simplicidade!

Uma experiência inesquecível!!

Roberta Dias

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